Janeiro Verde – Prevenção ao Carcinoma de Colo Uterino

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Janeiro Verde - Colo Uterino - Dr Willia
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Janeiro é o mês da prevenção ao câncer do colo uterino. Você sabia que esta é a 3a neoplasia mais comum em mulheres no Brasil, segundo os dados do INCA, o Instituto Nacional do Câncer?


Selecionamos algumas perguntas sobre o tema, confira abaixo!



1) Quais são os principais cuidados para a prevenção do câncer do colo de útero?

A principal causa desta neoplasia é a infecção persistente pelo papilomavírus humano, mais conhecido como HPV. Existem diversos subtipos deste vírus, porém apenas alguns possuem potencial oncogênico, ou seja, a capacidade de promover transformações celulares que levarão ao câncer. Os subtipos que possuem este potencial são transmitidos por via sexual, portanto dizemos que o HPV é uma doença sexualmente transmissível. No Brasil, os subtipos mais comuns são o 16, 18, 31 e 33. Os subtipos 6 e 11 estão relacionados às verrugas genitais, geralmente benignas. Este vírus está tão intimamente relacionado com a doença, que pode ser detectado em praticamente todas as pacientes (99,7%) com esta neoplasia 1. Paradoxalmente, a maioria das infecções pelo HPV não leva, obrigatoriamente, ao desenvolvimento do câncer, pois o próprio sistema imunológico tende a combatê-lo e eliminá-lo.

O principal cuidado que a mulher deve ter é realizar rotineiramente o exame preventivo do câncer do colo uterino, que é o Papanicolau. Este exame deve ser feito por todas as mulheres, a cada um ou dois anos, após o início da vida sexual. O exame detecta diversas mudanças celulares que precedem a ocorrência do câncer, por isso é chamado de ¨preventivo¨. Estas alterações, em suas fases iniciais, podem ser tratatas e curadas, na quase totalidade dos casos, quebrando o ciclo de lesões induzidas pelo HPV, que levariam ao câncer 2.


2) Quais os primeiros sinais do surgimento deste câncer?

O câncer, em seus estágios iniciais, é praticamente assintomático (o que reforça, mais uma vez, a importância dos exames preventivos). Nas fases iniciais, a mulher pode apresentar sangramento vaginal irregular, sem relação com os períodos menstruais, ou sangramento após a relação sexual. Outros sintomas, inespecíficos, são a presença de corrimento vaginal aquoso, mucoso ou purulento e com odor fétido, que podem ser confundidos com infecçoes ginecológicas. Todos estes sinais devem ser valorizados pela mulher, levando-a a uma avaliação médica com ginecologista.

Em fases avançadas, a doença pode se manifestar com dor pélvica ou lombar, que pode inclusive se irradiar para os membros inferiores. Também pode apresentar sintomas intestinais e urinários, como urgência para urinar e evacuar, sangramento na urina ou nas fezes e até saída de secreção urinária e fecal pela vagina.


3) Quais os riscos para a saúde da mulher?

Os principais riscos estão relacionados com as fases mais avançadas da doença, em que o tratamento é mais agressivo, podendo levar a complicações em cirurgias com ressecções ampliadas dos órgãos pélvicos, com retirada do intestino grosso (reto), parte ou toda a bexiga, além da retirada do útero (histerectomia). Caso ocorra obstrução dos canais urinários (ureteres), a paciente pode evoluir com insuficiência renal crônica e necessidade de hemodiálise. Além disso, há os riscos envolvidos com a radioterapia, em que os órgãos ao redor do útero são irradiados, podendo apresentar alterações crônicas para evacuar (proctite actínica, com diarréia e, eventualmente, fezes com sangue) e urinar (infecções urinárias de repetição, dor e sangramento na urina).


4) Quais são os tratamentos indicados?

Nas fases iniciais, o tratamento é menos radical e busca sempre preservar a fertilidade e a capacidade de engravidar da mulher. Nestas situações, faz-se a retirada de partes pequenas do colo uterino, por via vaginal (procedimentos como a conização e a traquelectomia). Em algumas situações, é necessário a investigação da doença em gânglios linfáticos da pelve, que denominamos pesquisa de linfonodos sentinelas. Nestes casos, injeta-se uma substância específica no colo uterino e, por laparoscopia, procura-se na cavidade pélvica o linfonodo marcado por esta substância, que é retirado e analisado pelo patologista. Caso haja necessidade de radioterapia, em pacientes que desejam engravidar, é possível fazer a retirada dos ovários da pelve e mantê-los em uma posição mais para cima no abdomen (para que não sejam irradiados). Após o fim da radioterapia são recolocados em sua posição original na pelve, com boas taxas de sucesso em conseguir gestar.

As pacientes que não são candidatas a cirurgia preservadora de fertilidade, mas que ainda precisam de cirurgia, são submetidas a histerectomia radical, em que se retira o útero por completo, incluindo os ovários. Em casos mais avançados, em que a doença disseminou-se circunferencialmente ao redor do colo uterino, invadindo as estruturas de fixação denominadas paramétrios, a cirurgia não é possível, sendo tratada com radioterapia e quimioterapia.


5) Consultas periódicas ao ginecologista ajudam na prevenção?

Sem dúvida que sim! Como falamos anteriormente, é uma doença silenciosa e sem sintomas no início, mas que produz lesões que podem ser vistas ao microcópio em amostras de raspagem do colo uterino (exame de Papanicolau). A consulta regular com o ginecologista, para realizar o exame, permite identificar estas alterações e receber tratamento precocemente, com altas taxas de cura, evitando a progressão para formas mais graves.


6) Câncer de colo de útero pode estar relacionado a fatores genéticos?

Apesar de não haver um modelo de risco bem estabelecido, em bases genéticas, para o desenvolvimendo do câncer de colo uterino, estudos populacionais mostraram um aumento na incidência dentro da mesma família. Até alguns anos, acreditava-se que membros do mesmo núcleo familiar compartilhavam os mesmos fatores de exposição ambiental e, portanto, de risco, mas isso não pôde ser comprovado. Mais recentemente, diversos estudos buscam determinar associações genéticas para o câncer do colo uterino, encontrando muitas variações de polimorfismo (alelos) em uma vasta gama de genes, incluindo aqueles relacionados com imunidade, produção de enzimas inflamatórias, angiogênese e vias de supressão tumoral, porém nada ainda específico para este neoplasia 3.


7) O risco aumenta em pacientes com histórico de tabagismo e alcoolismo?

Ambos são fatores comportamentais, que podem estar associados com hábitos que aumentam a exposição ao HPV. O consumo de álcool não tem relação direta com o câncer de colo uterino. Mas o tabagismo tem! Há estudos que mostram um aumento em até 50% do risco para carcinoma escamocelular, que é o tipo mais comum desta neoplasia 4. Além disso, há correlação direta entre a doença e o número de cigarros fumados 2.

8) Em quanto tempo o câncer de colo de útero se desenvolve?

Isso depende muito de diversos fatores, como o subtipo do HPV envolvido (se é mais ou menos oncogênico), sua carga viral (ou seja, a quantidade de vírus ativo no colo uterino), fatores de higiene (outras infecções ginecológicas associadas), hábitos de vida (como múltiplos parceiros sexuais), estado imunológico da paciente (a doença é pior em imunocomprometidos). Considerando isso, pode-se dizer, de um modo geral, que o tempo decorrido entre uma primeira infecção por HPV de alto risco e o desenvolvimento do câncer pode ser algo entre 5 e 10 anos.

9) Quem tem câncer no colo do útero pode ter relação sexual?

Não se recomenda, durante o tratamento, seja com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, que a paciente mantenha relações sexuais. Geralmente neste período a própria mulher evita manter relações, por questões pessoais. Porém, antes de descobrir a doença, os hábitos do casal mantém-se os mesmos, quando a doença ainda está em suas fases iniciais, sem sintomas. Na presença de sintomas, mesmo que inespecíficos, como dor, sangramento ou corrimento, a mulher costuma perder o interesse e evitar o parceiro. Após o tratamento, espera-se que a mulher volte a ter uma vida sexual ativa, porém podem ocorrer algumas restrições, temporárias ou definitivas, a depender de eventuais sequelas cirúrgicas ou decorrentes da radioterapia na pelve. De um modo geral o fim do tratamento não impede que a mulher volter a ter relação.


10) Quais exames são necessários para detectar câncer no útero?

Basicamente o exame físico ginecológico, com toque vaginal e retal, somado ao especular, compõem a primeira etapa da investigação. O exame preventivo com a coleta de Papanicolau, feita sob exame especular convencional, é o mais importante. Ele pode ser um pouco desconfortável, mas não costuma ser doloroso, além disso é rápido e feito em consultório. Também pode ser coletado por enfermeira, em Unidades Básicas de Saúde do SUS. O material coletado vai para exame laboratorial, em microscópio, saindo o laudo após cerca de 15 a 30 dias. O resultado normal, por dois anos consecutivos, em mulheres com parceiro fixo e único, permitem a coleta a cada dois anos. Caso encontre lesões compatíveis com o câncer, deve ser encaminhada para médico especialista, que fará exames de imagem para determinar o estágio da doença, com tomografia computadorizada ou ressonância magnética. A partir daí, indica-se a melhor opção terapêutica.


11) Quais são os tipos de câncer de colo de útero?

Basicamente existem dois subtipos diferentes, que são os mais comuns: o carcinoma escamocelular (também chamado de espinhoso ou espinocelular), que corresponde a 70% dos casos, e o adenocarcinoma (cerca de 25%). Os demais casos são atribuídos a tipos histológicos mais raros. Praticamente todos estão relacionados à presença de infecções pelo HPV.


12) Onde buscar informações confiáveis a respeito do câncer, prevenção e tratamento?

O Ministério da Saúde, por intermédio do Instituto Nacional do Câncer, localizado no Rio de Janeiro, é o órgão oficial no Brasil para a divulgação das campanhas de prevenção e validação das diretrizes de tratamento. Porém, não é a única fonte de informações. Alguns hospitais, como o A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, possuem áreas voltadas à promoção da saúde e informação sobre esta e diversas outras neoplasias. Internacionalmente, o National Comprehensive Cancer Network (www.nccn.org) tem uma sessão separada para divulgar material de informação destinado aos pacientes, escrita em inglês.


13) Qual sua orientação para as nossas leitoras?

O câncer de colo uterino tem cura, cujas taxas são muito maiores quando é diagnosticado em fases iniciais. Para que isso aconteça, a mulher precisa passar por avaliações ginecológicas rotineiras, para realizar, entre outros, o exame de Papanicolau. Deve deixar de lado uma eventual vergonha de submeter-se a um exame íntimo; caso prefira, procure uma médica mulher para fazer seu acompanhamento. Mantenha uma vida sexual saudável, com parceiro fixo; utilize preservativo, caso mude de parceiro. Evite o tabagismo e tenha bons hábitos de higiene pessoal, qualquer alteração ginecológica deve ser investigada tão logo possível. As crianças devem ser vacinadas para o HPV, preferencialmente, até os 10 anos de idade, para garantir imunização antes do início da vida sexual. A vacina quadrivalente, que protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18 está disponível no SUS e é gratuita, com cobertura para meninas e meninos até 14 anos de idade. Informe-se, cuide-se e ajude seu corpo a funcionar perfeitamente. Você merece ser feliz e saudável!


Referências:


1 – Walboomers JM, Jacobs MV, Manos MM, et al. Human papillomavirus is a necessary cause of invasive cervical cancer worldwide. J Pathol 1999; 189:12.


2 – Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil - Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, Rio de Janeiro: INCA, 2019, página 38.


3 - Liu L, et al. Association between TNF-α polymorphisms and cervical cancer risk: a meta-analysis. Mol Biol Rep 2012; 39:2683.


4 - Appleby P, et al. Carcinoma of the cervix and tobacco smoking: collaborative reanalysis of individual data on 13,541 women with carcinoma of the cervix and 23,017 women without carcinoma of the cervix from 23 epidemiological studies. Int J Cancer 2006; 118:1481.


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